De Ponta Cabeça

27 04 2008

por Priscilla Santos

Você deve ter passado a vida inteira ouvindo a expressão: tempo é dinheiro. Como se cada segundo desperdiçado equivalesse a moedas indo pelo espaço. Também deve ter escutado aos montes sobre a sociedade materialista e seus supostos males à humanidade. Agora, suponhamos que tudo isso virasse de cabeça para baixo. Dinheiro é tempo o tempo que você gasta para ganhá-lo. E materialismo pode ser bom desde que você entenda como materialista aquela pessoa que valoriza tanto os bens materiais, mas tanto mesmo, que aproveita tudo o que pode deles, e, por isso mesmo, não precisa de muito para se satisfazer. Essas remexidas em velhos conceitos são algumas das propostas da simplicidade voluntária, um estilo de vida que passou a se propagar nos Estados Unidos nos anos 70, em resposta à sociedade de consumo, ganhou ecos em países como Canadá e França e, devagarzinho, chega ao Brasil. Pesquisas estimam que, nos Estados Unidos, cerca de 20 milhões de pessoas, 10% da população, estejam optando por uma vida materialmente mais comedida, pautada na convivência com a família, os amigos e a comunidade e no respeito à natureza, no sentido de fazer o máximo para preservar seus recursos. Uma maneira de viver que é exteriormente mais simples e interiormente mais rica, diz o escritor norteamericano Duane Elgin em seu livro Simplicidade Voluntária. O título do livro, lançado em 1981, deu nome a essa forma de viver.

A expressão simplicidade voluntária deixa claro que ter uma vida mais simples é questão de escolha, de estarmos mais conscientes do que queremos, de quais são os propósitos da nossa vida. E esclarece: não se deve confundir simplicidade com pobreza. Simplicidade é escolha, pobreza não. Simplicidade tampouco tem a ver com negar a tecnologia afinal, ela é muito útil. E muito menos significa mudar-se para uma cabana na floresta. A idéia é simplificar a vida onde se está, com o que se tem - e a maior parte das pessoas que já fazem isso vive nas cidades.

Dinheiro é tempo

Paulo Roberto trabalhava no mercado financeiro. Tinha um bom salário, boas perspectivas na carreira, freqüentava restaurantes e festas. Mas comecei a pensar que essas coisas não valiam o esforço que eu tinha que fazer para tê-las: muitas horas no trabalho, afastado de família, dos relacionamentos afetivos. Não traziam um benefício que justificasse esse sacrifício todo, diz. Pediu demissão, virou professor universitário, mudou-se para um lugar menor e está mais satisfeito.

Além do tempo e da energia investidos para ganhar o dinheiro necessário para comprar bens, também é preciso mantê-los. Se uma pessoa tem uma casa na cidade, outra na praia e uma terceira no campo, precisa cuidar da manutenção. Se tem dois carros em vez de um, vai ao mecânico o dobro de vezes. Você fica ali, ticando coisas numa lista, em vez de estar tomando um café com um amigo. Existem pessoas que parecem viver para resolver os problemas dos bens materiais que têm, diz Paulo Roberto. Por isso, vale a reflexão: o quanto o tempo e a energia investidos para a aquisição de coisas podem minguar as oportunidades de conviver com as pessoas, de buscar a espiritualidade, o autoconhecimento e o senso de comunidade?

O que Paulo Roberto fez, mesmo sem saber, foi o que a escritora Vicki Robin, uma das precursoras da simplicidade voluntária nos EUA, recomenda: tenha uma relação mais pessoal com o dinheiro. Ele é sua energia vital. Você paga pelo dinheiro com seu tempo, afirma Vicki. Quando você gasta dinheiro, não está gastando um papel emitido pelo governo, mas as horas que você investiu em seu trabalho. E, porque você se ama e se respeita, é melhor gastar o dinheiro com coisas que tenham valor para você, diz. Vicki propõe que as pessoas se questionem: aquilo que possuo ou compro promove a atividade, a autoconfiança e o envolvimento ou induz à passividade e à dependência? Até que ponto meu trabalho e meu estilo de vida atuais estão apenas vinculados ao pagamento de prestações, à manutenção das coisas, às despesas com consertos e à expectativa de outras pessoas? Levo em consideração o impacto de meus padrões de consumo sobre outras pessoas e sobre o planeta?

Fonte: Vida Simples


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Uma resposta para “De Ponta Cabeça”

1 05 2008
dZ (15:15:41) :

Eu vi uma reportagem sobre pessoas que abandonaram grnades casas e automoveis por pequenos quartos com o que era necessário, onibus e empregos mais felizes…

Na epoca não tinha dado muito valor, mas gostei da frase “dinheiro é tempo”…

Simples palavras né?

Obrigado pelo texto :)

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