Amor é jardim

30 06 2008

Amor não resiste a tudo, não. Amor é jardim. Amor enche de erva daninha. Amizade também, todas as formas de amor

Caio Fernando de Abreu





QUALQUER COISA (Pequena história de amor)

27 06 2008

Ele vai dormir no sofá.
Não porque brigou com ela, não porque se afastou, não porque estão ressentidos.
Não houve desentendimento, princípio de discussão, mentira naquela noite.
Ele vai dormir no sofá por escolha.
Por decisão.
Vai dormir no sofá porque ela não estará em casa.
Quando ela viaja, ele pega seu travesseiro, sua coberta e deita na sala. Liga a tevê e se distrai da solidão.
Tudo o que servia em sua época de solteiro agora o aborrece. Não partirá para festa, beber com amigos ou jogar futebol.
Antes bastava a namorada sair e ele se via livre, louco para rua.
Hoje a mulher sai e ele se vê abandonado.
Liga o som e faz-de-conta que ela está tomando banho.
Como um cachorro, fica mais perto da porta. Como uma criança, fica mais perto da janela.
Não suporta a cama de casal. Não agüenta girar o corpo sem encontrá-la.
Pega um vestido dela no cabide, ameaça cheirar e recua. Conclui que isso já é doença. Mas cheira. Cheira com a vaidade da doença.
Por alguns momentos, tenta imaginar como dormia sozinho na adolescência. Pressiona os olhos com a contundência dos ouvidos. Fracassa. Depois de viver, imaginar é mais difícil.
Ele depende do corpo dela para ler de noite. A luz do abajur é muito fraca, mortiça.
Pisa no quarto para buscar as roupas. O quarto é uma despensa durante os dias da ausência.
Ele acampa em seu apartamento. Muda os hábitos, come qualquer coisa, bebe qualquer coisa, telefona qualquer coisa, trabalha qualquer coisa.
Qualquer coisa é sua vida nas próximas horas.
Ele acreditava que a conhecia. Isso quando a pediu em casamento.
Ele só não esperava não se conhecer depois dela.
Casou com ela com toda a clareza.
E casou consigo no escuro.
Tudo o que conheceu dela desconheceu de si.
Liberou memória na personalidade.
Percebeu que os limites não são os mesmos. Os limites trocam de idéia.
Sua mulher tem limites diferentes hoje de ontem de amanhã.
Não se repetem.
O limite do cansaço. O limite da voz. O limite da brincadeira. O limite da provocação. O limite da paciência. O limite da conversa. O limite dos filhos. O limite do prazer. O limite da educação. O limite do trabalho. O limite do silêncio. O limite do amor.
Assim que ele aprende os limites dela, ela muda os limites.
Não é gozação. Ela não age por mal.
Foi ele que a ajudou a superar os limites.

Fabricio Carpinejar





MEU QUARTO

17 06 2008

Podemos sair de casa há anos, e o quarto que abandonamos é conservado pelos pais. Não modificam uma vírgula de nossa letra. Não alugam, não fazem reforma, não mudam as estantes, não trocam a pintura, a fechadura e os tapetes. Nós alteramos a infância, não os pais, que em qualquer idade nos enxergarão pequenos. Nos enxergarão como se ainda fosse possível resolver a tristeza e a dor com um colo.

Quando voltamos para residência familiar, separados ou exilados, desempregados ou desencantados, descobrimos o quanto eles nos amam. Amam a criança que fomos. Nenhuma boneca foi jogada fora, enfileiradas pelo tamanho. Nenhum carinho desperdiçado. As canetas coloridas da escola guardam tinta. As agendas estão na gaveta, com as fotos dos amigos e as primeiras confidências. Os pôsteres das bandas de rock, que hoje nem fazem sentido, permanecem atrás da porta branca. As revistas proibidas seguem escondidas em uma madeira solta debaixo da cama. A mesma cômoda onde escrevemos cartas de amor e varamos a noite estudando para provas. O mesmo abajur preto, com problemas de contato. O mesmo enxoval, como se tivéssemos passado um longo final de semana fora (um final de semana que pode ter durado vinte anos), e retornássemos de uma hora para outra. O mesmo travesseiro com cheiro de nosso pijama. Os mesmos cabides e espelho. Até a pantufa nos aguarda, com a plumagem desalinhada de ovelha.

Tudo em ordem e recente, a apagar que lacramos a porta com um adeus, a esquecer que viramos o rosto para sermos felizes com nossas famílias. Os filhos são dramáticos e se despedem com adeus, mas vão voltar e voltam, mesmo que seja para se despedir verdadeiramente.

E não é apenas a aparência do quarto que resiste intacta. É o jeito como os pais nos tratam, sem censura e castigo, sem julgar as escolhas e precipitar arrependimentos. Em silêncio, a mãe fará o bolo de laranja predileto. Ruidoso, o pai perguntará se não queremos caminhar com ele. Ao sair, a mãe dirá para não esquecer o casaco, o pai avisará para nos cuidar e voltar cedo. O tratamento é idêntico, insuportavelmente idêntico à adolescência. A velhice não ameaça o amor.

Apesar de confiarmos que somos outros, os pais continuam nossa vida. Não interessa a cor de cabelo, a tatuagem, o piercing, a cicatriz, a ferida, a alegria ressentida, os fios grisalhos e os divórcios, os pais acreditam que somos os mesmos. Somos as crianças que eles deixaram crescer”

Fabrício Carpinejar

A mais pura verdade.
Meu quarto continua intacto mesmo depois que casei, até os ursinhos de pelúcia, a arrumação das coisas, alguns livros que deixei para quando fizermos o escritório aqui em casa. Tudo do jeito que deixei…





12.06 Dia dos Namorados

12 06 2008

É, não somos mais namorados. Não somos? É claro que somos namorados, só que agora moramos juntos, dormimos e acordamos juntos, conhecemos ainda mais um ao outro.  Os defeitos e manias que não mostrávamos, as qualidades que se intensificaram. Enfim, ainda somos namorados sim. E eu espero que jamais deixemos de ser! Então…

Amor não é se envolver com a pessoa perfeita,
aquela dos nossos sonhos.
Não existem príncipes nem princesas.
Encare a outra pessoa de forma sincera e real, exaltando suas qualidades, mas sabendo também de seus defeitos.
O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser

Mario Quintana 





Quantas vezes eu assassinei o amor?

21 05 2008

O amor nunca morre de morte natural. Anaïs Nïn estava certa.
Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.
Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença.
Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.
Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.
O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos.
Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento.
O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida.
O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.
Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos.
No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.
Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.
Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.
Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.
Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.
O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.
O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela”

Fabricio Carpinejar





Minha vida!

1 04 2008

 

A minha vida está aqui, onde tu estás, a minha vida é esta e não há outra vida

R. Aguirre





Dia do Bibliotecário

12 03 2008

Book love

Há crimes piores do que queimar livros. Um deles é não lê-los

Joseph Brodsky (1940-1996)





Na verdade, o amor…

20 12 2007

Na verdade, o amor é bastante violento.
Às vezes é tão doloroso e devastador!
Não há nada pior. Ou melhor.
Os altos e baixos são igualmente insuportáveis.
Por outro lado, a ausência deles é ainda mais …

Danielle Steel in Um longo caminho para Casa





Por amor

27 11 2007

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás…Seremos…

Pablo Neruda 





Amor

25 11 2007

Amor é quando é concedido participar
um pouco mais.
Amor é a grande desilusão
de tudo mais.
Amor é finalmente
a pobreza.
Amor é não ter
inclusive amor
É a desilusão
do que se pensava
que era amor.
Amor não é prêmio
por isso não envaidece”

Clarice Lispector